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terça-feira, 7 de outubro de 2008

APOCALIPSE NÔ - III




TEXTO 3.

Desde que assumiu a vice-presidência do escritório, Jeremy K. andava indiferente aos antigos colegas. Não porque era um dos poucos negros de lá, o que já trazia desvantagem naquele universo albino.

Mas, estranhamente, há dois anos, havia deixado de beber com amigos, de convidar as moças de Mannhatan para noites em seu apartamento, até o farmacêutico, da 2ª avenida, estranhou que seu cliente preferido sumiu de vista. Mr. K, de sua sala no primeiro andar ordenava, apenas; e aos úteis.

Sua rotina de reclusão se acentuou após receber um telefonema. Era o presidente dos Estados Unidos da América. Não ouvia aquela voz texana há pelo menos três anos.

Demandava explicações factuais o senhor presidente sobre a bagunça nos números do mercado financeiro. O que dizer ao público sobre a falha na farra? – indagou apreensivo. A total ingerência sobre aqueles negócios, fez-se imprescindível ao chefe do Estado saber o que não poderia dizer às câmeras.

Do término da conversa ao colapso demoraram poucos segundos. Nas duas semanas seguintes Jeremy não foi trabalhar; se trancou em casa, estava imóvel. Verrugas pretas brotaram em seu pescoço, adoeceu sua pele, uma coceira tremenda.

Não procurou médico. Passou a comandar os negócios do próprio quarto. Não quis mostrar a face enferma aos subalternos do escritório; não queria desanimá-los - temia a débâcle tanto quanto eles.

Naqueles 15 dias seguintes, além das negociações constantes, com a firma prestes a decretar falência, Jemery K. releu boa parte dos seus mentores, de Friedman a Hayek, Greenspan, Freud (?). Consultou laudas e laudas escritas nos jornais por especialistas das mais variadas escolas. Estava obcecado sobre o futuro.

Numa certa manhã, após 36 horas de discussões finais com os chefões, sua mente entrou em colapso. O escritório estava liquidado. Seus donos mais livres do que nunca para fugir da crise que cavaram.

O mundo feliz de uma geração ruindo, por desmando dos juízes e ganância dos apostadores. Das masmorras do imenso império chamado mente, fugiam fantasmas, que agora vociferavam sandices na consciência de Jeremy.

Você deve agir!, vociferava Tio Sam. Ele não queria ouvi-los. Os homens logo achariam a solução, pensava aturdido. Dominado por tal força transcendental, paranóia e destino se abraçaram - tamanho temor à fissão seguinte ao colapso.

Passava das três da tarde, há dois dias conversava com fantasmas. Há dois dias se deixava levar por aqueles desprazíveis seres do passado. Keynes sugava sua alma. Num rompante, Jeremy K. agarrou a obra de Friediman repousada sobre a mesa de cabeceira e correu para a rua.

Chegando a Main Street, Mr. K., sobre aquele imenso volume de mil e poucas páginas, improvisou um púlpito. Inflou os pulmões, trouxe a palavra do homem santo, mal compreendido, que levou à ruína milhões de pessoas, e que poderia lhes trazer à fortuna novamente. Não havia outra maneira, a não ser reforçar a fé no sistema.

Sua boca libertou bestas das mais variadas. Um trágico cenário sobre o cenário feliz de Nova York era pintado. Queimarão casas, disse em tom soturno, demolições nos bairros, para vender terrenos mais baratos e elevar o preço das residências restantes. Temos de ser fortes, falava frio, firme, imponente, feito um militar informando a um grupo de iraquianos as novas regras do bairro em ruínas.

A solução dependia da presença diária da ordem para impedir a ação corrosiva de justiceiros, grupos populares, milícias, o oportunismo fascista, nas áreas degradadas. Não cairiam na calamidade de Nova Orleans - eu não permitiria, irmãos!

Jeremy era ouvido por poucos, alguns erguiam punhos à frente de sua face, mendigos jogavam moedas sob seus pés; homens de paletó tentaram dissuadi-lo de sua missão, não queriam profetas seduzindo mentes, confundindo as pessoas nas ruas.


Berrava, irmãos, com suor de nosso povo salvaremos nossa reserva moral. Ele falava do fluído para a engrenagem flácida da pesada máquina financeira, obsessiva em adquirir desconfianças, que colou o bundão em espaçosas poltronas de couro, com rodinhas anti-ruídos, para piso frio, perfeitas para movimentar melhor.

Um monstro obeso de excessos, o qual necessitava de alguém enxuto para correr na roda enquanto as execuções, rápidas de mais, e, as soluções, lentas de mais, adoeciam suas artérias entupidas.

Mr. K. sentia o corpo levitar. Sabia tocar a consciência daqueles que o ouviam. Um número cada vez maior de pessoas. Era como se fizesse aquilo desde criança.

As coisas desse mundo, ó Deus, irmãos, desde as incursões nos campos árabes, somos só sangramento. E me pergunto se tanto sofrimento era necessário. Mas, não demoraremos a sanar tal angústia que, agora, outros nos pregam em cruzes pelo planeta. Trazemos a liberdade, e isso não nega nossos atos. Irracional aquele que não aceita o macaco dentro de si.

As palavras excitavam sua mente. Por um momento, sabia o que estava fazendo. Entretanto, mal pressentia o beco sem retorno que a paranóia e o poder o pressionavam a entrar: uma volta bizarra às formas de um ontem de intervenção implacável da força.

Como seria caso tivesse de agir? Ele não soube responder pra si. Permitir-se-ia àquela farsa? As marcações no palco ele conhecia, concordou. Lidou com líderes a vida toda. Sim, sim!, Mr. K. aceitava a missão.

Não acreditava nos alicerces do bem e do mal? Da luta contra os difamadores das liberdades? Além do mais, estava ali por seu país. Traria ao mundo a nação sem cara-pálida como Bushes e Clintons. Ali estava um negro que queria agir, como nunca antes.

Sentia-se, de verdade, uma cria diferente do ninho. Mas, o âmago dos poderosos guarda a necessidade de alimentar um espírito ancestral de dominação, poder, supremacia, o que tornava quente a gota imperial em sua saliva. Jeremy K. logo se mostraria uma ameaça? Jeremy K. logo seria morto? Jeremy K. não parava de pensar em Jeremy K.

As dívidas da guerra declarada ao mundo sangrariam mais a nação das liberdades. O sonho da eternidade feliz exterminada por uma conta de cartão de crédito estava próximo. Cenas horríveis em sua mente pediam palavras de força.

Eu não fugirei! Há esperança!, gritou, para em seguida ser carregado nos braços, para longe, por trezentos que ali passavam.

Contam os profetas: aquele anjo negro salvador, vestido de carisma em dentes luminosos, já célebre em palanques improvisados, contando com significativos olhos admirando sua eloqüência, não era diferente dos ianques da grande estirpe, edificados no Texas, em Harvard, Berckley ou Massachussets.

Para esses místicos de pouca fé no futuro, observando mutações no agora infinito, restava aguardar o depois frente às encenações de habilidade dos jogadores com as cartas marcadas de seus gastos baralhos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

APOCALIPSE NÔ - II

"Do cadafalso do mundo, observou birutas nos arranha-céus"


Texto 2.

Fannie e Lisa bocejavam em frente aos computadores - era mais um dia tedioso de oscilações imprevisíveis nos mercados. Tardava a injeção de grana por parte do governo na economia. O que suscitava confusões em seus sentimentos frágeis que adoeciam à percepção de obstáculos cada vez mais intransponíveis.

Naquele momento, não ligavam caso fossem as próximas a receber a intimação demissional. Estavam entediadas. E nada no mundo as excitaria. Nada.

Suas mentes mal praguejavam vinganças ao sistema financeiro. Os números, aqueles covardes, eram pura ilusão, haviam enganado até as mais precisas calculadoras. Apenas uma certeza: era um sistema sólido, sua força de regeneração irremediável; todos os juros seriam quitados até a destruição e remanejamento das casas. Os homens cuidariam de tudo, bastava esperar pela ajuda salvadora.

O mundo estava parado e nada havia o que fazer. Restava admirar o cata-vento esquecido pelo filho da Maggie no parapeito da janela; brinquedo dócil aos ventos sufocantes de setembro ventilava alívio ao colapso com sua brisa de imensas cores; cata-vento que ambas pensaram juntas só haver no passado imemorial que lhes retornava para distrair a cabeça.

Fannie e Lisa bocejaram em simultâneo por três vezes seguidas. O ar inflou os pulmões de uma até travar-lhe as costelas; como doía o tédio abdominal - falta de estímulos na carne desde a semana passada; com os contracheques suspensos, à espera de um milagre, para voltar aos papos com os bons tipos da academia; a qual deixou esta semana por falta de pagamento.

Melinda, a mandona que todo patrão sonha, vigiava os números atrás de uma trincheira de papeis; eram os contratos emitidos nos últimos dois anos. Uma impossível contagem de agora imprescindíveis pagamentos futuros não relacionados no balanço do escritório.

Melinda era do tipo que trabalhava horas seguidas; sempre fiel aos compromissos. Naquela semana tensa, parecia ter envelhecido dez anos. Rugas, queda de cabelos, olhos contornados por imensos anéis negros. Estava exausta. A sua frente papéis de diversas cores, documentos vindos de todo o canto do mundo. Seu corpo queria se jogar sobre tudo aquilo antes de adoecer por completo. Antes da grande convulsão.

Mas uma voz distante disparava berros desesperados a cada cochilo seu. Acorde, acorde, que virá a qualquer momento, que virá a qualquer momento. Você! Era um tumulto de vozes ensurdecedor.

Sua mente fraquejava, queria esquecer toda aquela responsabilidade; não tinha menor culpa. Mas aquele trovão estalando raios seus dentes batiam, seu corpo frigia a cada nervo do corpo que aceitava a derrota do cansaço. Ela não desistiria de remediar aquele caos.

Num desses devaneios repentinos, Melinda abriu os olhos assustados. Imaginava ter ouvido o urro da besta feroz, como noutros pesadelos que lhe acometeram os sonhos naquela semana; algo gigante que ela não conseguia distinguir nas sombras, mas que pressentia o respiro devastador.

Vagarosamente ergueu a cabeça sobre a pilha de papéis. Viu o escritório. Deserto. As luzes apagadas, pastas, papéis, pelo chão. Parecia a sala do 4° após o pregão. Devastada.

Resolveu levantar-se, e ir até a janela observar os carros por um momento. Era madrugada já. Dormira quantas horas? Ainda havia muito trabalho e não poderia pregar os olhos assim tão facilmente.

A verve alemã que corria em suas veias não lhe permitia fugir ao compromisso. Mas era alucinante aquela voz, que lhe pedia mais e mais. Ela já queria mais estar dentro de si. Com aquele sino badalando a cada fraquejo.

Começou a andar em círculos. Pressentiu que algo de proporções gigantescas se aproximava; podia ouvir seus passos demolindo prédios e casas a quilômetros dali.

Foi até as portas, elas estavam trancadas. O faxineiro, novamente, pensou. Por vezes o rapaz da limpeza, o qual não se certificava se haviam pessoas trabalhando no escritório, a trancara pra dentro. A mesa de Melinda ficava ao fundo, perto de Fannie e Lisa, com rápido acesso às escadas de incêndio. Possuía pavor por prédios altos. A vida toda temeu algo ruim.

Os passos destruidores pareciam mais próximos. Queria abrir as janelas, mas estavam invioláveis. Há alguns dias, por medida de segurança, a empresa pregou todas as janelas; eram tempos difíceis, temiam-se "suicídios gratuitos", comunicou num memorando o supervisor K. Street.

Contudo, nenhum suicídio, ataque cardíaco, ou coma alcoólico foi registrado nos anais de Nova York. Ao longo da semana, os jornais registravam em sua longa cobertura, fotos dos demitidos e suas caixas contendo pertences; saindo apressados dos imensos totens de mármore que adornam a boca faminta de Wall Street, mas tranqüilos, sem revolta, aparentemente conscientes da regra do jogo.

Seria Melinda a primeira a quebrar o silêncio daquela tensão horrível com um grito agudo desesperado? Alguém saberia o que fazer. A ajuda estava caminho.

Escondeu-se com pavor debaixo de uma das mesas. Abraçou aos joelhos. A mente queria fugir nas idéias. O que era aquilo que aproximava com passos pesados, criando fissões em nosso solo? Seria o fruto da dinâmica de nossa fé? A entidade a qual devotou todos os dias de trabalho?

Melinda estava certa, havia se materializado a profecia das cartas econômicas: atrás das oferendas, o grande dragão trazia terremotos ao pretender subir à terra.

Aquele, de fato, era motivo para todos ficarem apavorados, pensava. Aquele monstro que por vezes ouvira nos rumores entre os corretores. Eles sabiam, viam nos seus imensos cismógrafos - o respiro da besta rondava a cidade. A destruição era eminente.

Nos últimos dias, dedicada exclusivamente a socorrer seus patrões da dêbaclè, desdenhou daqueles que juravam pânico aos repórteres. As finanças estavam um caos, mas nada concreto acontecera.

Os rapazes do 4° apareciam nas TVs angustiados, temendo o pior; mas não subiram à cobertura do prédio para clamar ajuda, não havia incêndio; ela, mesma, ao descer para um rápido recreio não esbarrou em imensas filas de esfomeados nas cercanias de Wall Street, a fome estava longe dali.

Onde, por Deus, se escondia esse terror que escorria frio em suas testas. Onde arrebentou a fissão que trouxe aquele monstro a Terra?

Ergueu-se de sob a mesa. Tomou impulso. Saiu em disparada contra uma das janelas. Pensara rapidamente a respeito e a única certeza de Melinda era o fim.

Foi uma angustiante espera até agora, que aos seus olhos escaparia fechados em sono profundo. Estava definido.

Lançou-se em seus pesadelos, não havendo surdez existente para alarmes tão estridentes. Como, também, não havia forças suficientes para conter o vício humano de criar monstros.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

APOCALIPSE NÔ - I


"Do cadafalso do mundo, observo birutas nos arranha-céus"


Texto 1.

Na iminência da débâcle, o olhar apreensivo de Terry O. fisgou os macios seios da corretora loira que devorava os cotovelos encostada num dos balcões do fundo da sala. Num escape às profundezas do nada, entorpecia o corpo com a imagem sedutora. Suas células impulsivas se reconfortavam enquanto à árida espera sem fim das novas cotações no painel já lhe causavam sensações angustiantes.

Por um momento ele não estava lá. Com mente e pele distraídos, até a alucinação. Aqueles seios eram imensos, farejavam com seus dois bicos delicados o mormaço das negociações; farejavam pescoços, virilhas, axilas – procuravam desejo na fonte agora seca de emoções, brochada pelos temores. Seios sedutores, maliciosos em seus movimentos, Terry O. por nenhum momento se penitenciou por tirar os olhos de seus deveres, era de um mergulho na carne que sua carne aguardava ansiosa.

Estremecido, suava frio em seu oásis, ainda se dividia com os problemas mundanos, o vapor da areia traria chuva mais tarde? Coçava o cenho, os seios brancos se derretiam em calda e se aproximavam em cheiro. A mulher dançava desequilibrada em sua magreza, o tiroteio dos seus olhos marcavam o ritmo em Wall Street, sob o tintilar das conchas, a areia macia e a água em abundância.

Nenhuma terra do planeta era comparável, esta a sensação dos primeiros náufragos em seus limites. Enquanto lambia com fervor a auréola arrepiada dos seios oníricos de Samantha, Terry O. perdia a cara dos números, queria falar de amor, lembranças, futuro, mas criado no poço dos desejos alimentava-se nas tetas secretas da corretora sem pensar, sem reagir.

Por ele, deveriam ir ao ápice o quanto antes. Por um momento lembrou do chão sob o qual pisava: ali devaneios eram fugazes, o fluxo sem fim não resistia aos obstáculos, como algo encaixado no lugar errado, um zíper emperrado ou uma fila de banco.

Já que os seios não contentavam suas células, rasgaria a roupa, faria charme com a gravata, decidido a passar um último momento antes do apocalipse furando aquela carne que derretia em calda e lhe dominava o desejo. Algo inegociável com patrões, repórteres, números, cocaína: homens. A grande farra é agora, na eminência da débâcle.

Abriu a braguilha, sacou seu imenso pau de mais de dois metros, insurgiu um chimpanzé enfezado chicoteando com prazer a pica; doíam-lhe as bolas; aterrorizava a todos. Subiu sobre a mesa de operações ao lado do balcão principal. Pulava. Torcia pescoços com seu laço, causou gritaria nos corretores mais jovens. A agente loira, ainda com os seios cobertos, não procurou abrigo, permaneceu onde estava, desconfiada quanto às intenções daquele cara de olhos serpenteadores.

Quando Terry O. avistou aquele animalzinho, nada temeroso, esbanjando tranqüilidade, suas divisões cessaram. Paranóia e destino em dois mundos não mais habitavam. Ele correu veloz, decidido, para o fundo do escritório donde Samantha lhe observava. Um caminho sem volta sob areias escalndantes.

Seu olhar era feito de um gato que encerrava num pássaro o destino. O pouco de homem que restava sobre suas patas não desintegrou a vontade, mas permanecia trágico - cego a ponto de não saber como extrair prazer com sua antes hábil moedora de carne.

Rasgou a cara da corretora com ira no primeiro golpe, seguido de outros socos e pontapés ferozes. Nenhum outro macaco ousou interferir, disfarçavam o olhar na copa das árvores. A fêmea confusa, em sinal de arrependimento, abaixou a cabeça e foi catar piolhos na nuca do macho.

A tarde não era das mais tranqüilas, o calor excessivo daqueles dias formavam chuvas à vista no céu. Os macacos, mascando feno imaginando a humanidade, não sabiam o que lhes aguardava.


Arte: Will Murai